O ex-ministro da Fazenda Paulo Guedes voltou a criticar publicamente a condução da política fiscal no país, afirmando que o governo atual abandonou a disciplina que marcava os anos recentes e adotou um padrão de gasto compatível com medidas de emergência mesmo fora do contexto de crise sanitária. Em palestra em São Paulo, Guedes destacou que deixou o mandato com a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em 71,7% do PIB, ao final de 2022, e lembrou que a DBGG alcançou 79,2% do PIB em fevereiro de 2026, sinalizando que o endividamento voltou a subir após o período pós‑pandemia.
O argumento central do ex-ministro foi a relação direta entre política fiscal e custo do crédito: uma gestão fiscal frouxa, disse ele, força a autoridade monetária a subir o 'freio' dos juros, em prejuízo do investimento privado, do crédito e do consumo. Essa ligação — menos rigor fiscal levando a juros mais altos — é a chave da crítica técnica que Guedes apresentou: aumento generalizado do custo do capital tende a reduzir a capacidade de retomada estrutural do crescimento e a corroer projetos industriais e de largo prazo que vinham surgindo.
Os dados citados pelo ex-ministro reforçam um alerta explícito sobre a trajetória das contas públicas. O PLDO de 2027 projeta que a DBGG permanecerá em patamares elevados e chegará a 87,8% do PIB em 2029; estudos externos, como o Monitor Fiscal do FMI, apontam risco de a dívida atingir a casa de 100% do PIB já no primeiro ano do próximo governo. No campo político, essas projeções entram no jogo eleitoral: Flávio Bolsonaro disse que pretende dar continuidade às políticas associadas ao período de Guedes, alimentando especulações sobre eventuais convites. Guedes, por sua vez, negou qualquer intenção de entrar na política, afirmando que não será candidato a cargo algum.
A avaliação técnica ganha contorno político: o aumento persistente da dívida e a manutenção de um 'orçamento de emergência' fora de contexto podem acender alerta sobre capacidade de financiamento, pressionar a taxa de juros e ampliar desgaste sobre a narrativa fiscal do Executivo. Para adversários e mercados, essas leituras traduzem-se em questões concretas — necessidade de ajuste, prioridade de despesas e escolhas entre crescimento e sustentabilidade fiscal — que serão centro do debate para o próximo governo e para o parlamento.