O Federal Reserve sinalizou novos elementos de incerteza na economia americana no último Livro Bege. O relatório, que resume entrevistas e pesquisas nos 12 distritos do banco central até 6 de abril, afirma que a atividade aumentou e o emprego se manteve estável, mas que a guerra no Irã tem sido uma fonte importante de dúvida para empresas.

Segundo o documento, o conflito no Oriente Médio elevou preços de energia — com a gasolina acima de US$ 4 o galão e o diesel acima de US$ 5,60 — e impactou embarques globais após o fechamento do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de um quinto do petróleo mundial e um terço dos embarques de fertilizantes. O aumento dos custos de energia torna transporte e insumos mais caros, afetando plásticos e fertilizantes.

Como consequência, muitas empresas adotaram postura de "esperar para ver" ao decidir contratações, preços e investimentos de capital. Para o Fed, que prevê manter a taxa entre 3,50% e 3,75% na reunião de abril, choques de commodities são em geral tratados como temporários — mas a persistência nas pressões de custo, inclusive no núcleo da inflação, pode complicar o cronograma de eventuais cortes de juros.

O Livro Bege funciona como retrato do momento, não previsão. Ainda assim, a combinação de custos mais altos e aversão ao risco empresarial tem efeito prático: desaceleração de investimento, risco de repasse de preços a consumidores e pressão adicional sobre cadeias produtivas (incluindo o setor agrícola). Para formuladores e mercados, o conflito no Irã transforma um choque de oferta em um fator que amplia a incerteza sobre a trajetória da inflação e do ciclo monetário.