O confronto iniciado com ataques de Estados Unidos e aliados ao Irã tomou um rumo que ultrapassa a esfera militar: a disputa pelo controle do Estreito de Ormuz converteu‑se em um mecanismo de poder econômico. A região é ponto de estrangulamento para petróleo, gás, fertilizantes e outras commodities, e quem dominar o tráfego tem margem para impor custos e regras ao comércio global.
Teerã constituiu a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA) e exige coordenação de embarcações que queiram transitar, sob risco de taxas ou de represálias militares. Mesmo após um memorando de entendimento de 60 dias com os EUA, assinado em 18 de junho, o controle prático do trânsito não foi revertido: as travessias que chegaram a subir para cerca de 70 navios por dia durante a vigência do acordo recuaram a pouco mais de uma dúzia quando a tensão reapareceu.
O impacto econômico é direto. Cobranças recorrentes — há relatos de taxa de US$1 a US$2 por barril já praticada —, somadas a pressões por seguradoras e aumento do frete, elevam o custo final de energia e insumos agrícolas. A proposta pública, e rapidamente revogada, de taxar em 20% o trânsito de navios por iniciativa do então presidente dos EUA ajudou a legitimar a ideia de pedágio e expôs incoerência na resposta internacional, ampliando o espaço de manobra iraniano.
Se a prática do pedágio se institucionalizar, haverá efeitos políticos e fiscais além do comércio: aumento da inflação importada, pressão sobre orçamentos públicos e risco para cadeias produtivas sensíveis, como fertilizantes. Trata‑se de um teste à ordem marítima que sustenta o comércio global. A resposta exigirá coordenação diplomática, naval e de seguros — e um plano claro de mitigação para proteger consumidores e a atividade econômica, sob pena de o custo desse estrangulamento ser repassado integralmente à sociedade.