A escalada do conflito no Oriente Médio mudou expectativas sobre a trajetória da Selic, na avaliação do economista-chefe do Bmg, Flávio Serrano. Segundo ele, o Banco Central tende a reduzir os juros em passos de 0,25 ponto percentual nas próximas decisões, encerrando o ano em torno de 12,75%. A leitura é de que, diante de um balanço de riscos mais assimétrico — com maior probabilidade de pressão inflacionária — o BC ficará mais cauteloso do que se previa antes da crise externa.

O fator externo mais sensível é o petróleo: alta nos combustíveis pode transmitir-se para o índice cheio e contaminar serviços, área que já pesa na inflação. O Bmg projeta IPCA de 2026 perto de 5%, mas Serrano alerta que reajustes em combustíveis podem elevar esse número. No curto prazo, portanto, o risco inflacionário prevalece; no médio prazo, o risco que predomina é o de desaceleração da atividade, dependendo da evolução do cenário internacional.

No câmbio, o economista vê a moeda brasileira relativamente alinhada ao justo e avalia que o dólar deve ficar perto de R$ 5 no curtíssimo prazo — embora o fluxo cambial possa perder tração no segundo semestre. O pano de fundo doméstico, porém, é o que mais pressiona a política monetária: Serrano aponta que a dívida bruta caminha para perto de 95% do PIB e que o país terá de fazer ajustes. Para ele, gastos mal alocados, ausência de avanços na Previdência e um arcabouço fiscal que não ancorou expectativas ampliam o desafio.

O conjunto de riscos sugere que o BC deve atravessar o período eleitoral mantendo um ritmo lento de afrouxamento, abrindo espaço para decisões mais conservadoras caso as pressões externas e fiscais se intensifiquem. Para mercados e políticas públicas, a mensagem é clara: espaço para cortes existe, mas a velocidade dependerá da combinação entre condições externas e respostas domésticas às fragilidades fiscais.