A escalada de tensões no Oriente Médio e a consequente alta do petróleo voltaram a colocar a inflação global no centro do debate entre bancos centrais. O aumento do custo da energia, aliado a números recentes nos Estados Unidos, reacendeu a possibilidade de novas elevações de taxas em economias que vinham em processo de normalização, como Japão e Reino Unido.
Especialistas ouvidos pela Resenha do Dinheiro destacam que a pressão sobre preços de energia já começa a refletir nas expectativas e nos mercados. Para analistas como Bernardo Pascowitch, o movimento nos EUA soma-se ao choque do petróleo e torna mais real a hipótese de juros mais altos em lugares até então pacificados pela baixa inflação. Marilia Fontes lembra que o Japão parte de uma trajetória histórica de inflação muito baixa e episódios de deflação, o que torna a transição monetária mais sensível.
A mudança de direção do Banco do Japão tem implicações concretas para emergentes: o fim do carry trade — quando capital barato é tomado no Japão e aplicado em países com juros elevados — reduz o incentivo a manter posições em ativos locais. Em cenários de ajuste japonês, investidores tendem a desmontar operações alavancadas, vendendo ativos líquidos e ampliando volatilidade em bolsas, moedas e títulos, efeito que já foi observado em momentos anteriores de reversão de fluxo.
Para o Brasil, onde a Selic historicamente atraiu recursos estrangeiros, o risco é duplo: maior volatilidade no curto prazo e custo de financiamento mais difícil caso haja saída de capitais. O ajuste no exterior obrigará gestores e autoridades a avaliar riscos de mercado e a capacidade do país em absorver desalavancagens sem impacto excessivo na atividade. Em linhas gerais, o conflito no Oriente Médio mostra que choques geopolíticos continuam capazes de alterar trajetórias monetárias e encarecer o prêmio pelo risco global.