As guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, combinadas às sanções impostas à Rússia, tornaram o setor de energia mais complexo e volátil nas últimas semanas. Na avaliação de Marcus D'Elia, sócio da Leggio Consultoria, a soma desses fatores já se traduz em pressão adicional sobre os preços dos combustíveis — item que, segundo dados recentes, explica cerca de metade do aumento observado na inflação mais recente. A elevação dos preços interessa diretamente ao dia a dia do consumidor e cria um dilema político para governos, como o dos Estados Unidos, que buscam reduzir o efeito sobre a renda em ano de meio de mandato.

O canal de transmissão é claro: ataques a refinarias e sanções restringem a oferta de derivados — gasolina e diesel — e forçam a Europa a aumentar o refino local. Países que antes forneciam combustíveis ao continente, como Índia e Turquia em certos casos, ficam limitados pelas regras europeias, ampliando a demanda sobre a bacia do Atlântico e empurrando cotações para cima. No curto prazo, essa dinâmica afeta América do Norte, América do Sul e Europa, sem sinal imediato de normalização enquanto os confrontos persistirem.

Ao lado da oferta física, a logística também se agravou. Em busca de rotas seguras, embarcações adotaram percursos alternativos — operação shuttle no Golfo de Omã, utilização de oleodutos sauditas para escapar do estreito de Bab al-Mandeb — e enfrentam ataques e atrasos. O tempo de viagem maior e as escalas extras ocupam mais navios por mais tempo, e a frota disponível de petroleiros não pode ser ampliada rapidamente para suprir esse acréscimo. Esse gargalo operacional tem custo real: fretes e prêmios de risco que se espalham até o preço final dos combustíveis.

No plano político e econômico, as medidas pontuais, como a proposta de retirar sanções sobre navios de bandeira russa ou iraniana, têm alcance limitado se a União Europeia não fizer o mesmo. Para governos, o desafio é duplo: mitigar o impacto imediato sobre consumidores sem abrir mão da disciplina fiscal e preparar respostas para um choque que revela fragilidades estruturais da cadeia de suprimento. A solução definitiva — normalizar o fluxo pelo Golfo Pérsico e Mar Vermelho — depende de cenas de estabilidade que, hoje, permanecem fora do alcance. A consequência é clara: a disputa geopolítica continua cobrando preço na bomba, nas contas públicas e no bolso do cidadão.