A narrativa de que a inteligência artificial virá para "roubar" empregos por inteiro precisa ser temperada pelos fatos: a tecnologia tem automatizado etapas específicas de funções, e não, na maioria dos casos, substituído cargos inteiros. Relatórios e pesquisas recentes mostram que empresas citam a IA entre as razões para demissões — foi o principal motivo apontado em cortes de abril, pelo segundo mês seguido —, mas o padrão observável é o redesenho de tarefas dentro de posições já existentes.

Consultorias e estudos indicam que a IA pode automatizar uma parcela relevante das atividades associadas ao trabalho — a McKinsey calcula que mais da metade das tarefas pode, em teoria, ser automatizada —, mas essas tarefas estão espalhadas por diferentes papéis. Em vez de emergir um trabalhador-robô substituto, as organizações têm mixado automação e mão de obra humana, elevando a produtividade em porcentagens citadas por consultores, sem cortes proporcionais na folha.

No setor de tecnologia, por exemplo, ferramentas de IA já são usadas massivamente para auxiliar programadores, mas a profissão envolve mais do que escrever código: arquitetura de sistemas, revisão, tomada de decisões e solução de problemas permanecem humanos. Líderes do mercado já reformulam títulos e responsabilidades: o que era antes centrado em execução passa a exigir controle, validação e criatividade. O resultado prático, porém, tem sido demissões pontuais e milhares de vagas recalibradas — um custo social que as empresas e o poder público não podem ignorar.

A agenda pública precisa acompanhar essa transição. O choque real não é apenas contagem de postos formais, mas a redistribuição de tarefas, a pressão por requalificação e o risco de precarização se políticas de formação e proteção não forem adequadas. Do ponto de vista fiscal e econômico, ganhar produtividade sem absorção de trabalhadores em novas funções aumenta a pressão sobre indicadores sociais e exige respostas claras: programas de treinamento, incentivos à transição ocupacional e métricas que capturem qualidade do emprego, e não apenas números de emprego formal.