A valorização recente do Ibovespa não nasce de um ajuste interno robusto, mas do ingresso contínuo de capital estrangeiro e da alta das commodities, avalia Felipe Guerra, CIO e sócio-fundador da Legacy Capital. Em entrevista ao Café com Investidor, Guerra foi direto: “O Brasil não fez nada por merecer essa alta” — o ganho veio do contexto global de liquidez e de investidores em busca de diversificação.

Segundo o executivo, o movimento brasileiro se assemelha ao observado em outras praças produtoras de commodities, como Colômbia, Chile e México, todas próximas de máximas históricas. Para o investidor estrangeiro, que opera com custo de capital em torno de 2,5% a 3% no exterior, ativos brasileiros com múltiplos mais baixos tornam-se atraentes. Já o investidor local encontra dificuldades: com Selic próxima de 15% e juros reais em cerca de 8%, muitas ações não superam o retorno do CDI.

Guerra foi taxativo sobre o risco: “Se o estrangeiro for embora, a bolsa cai. Despenca.” A observação sublinha a vulnerabilidade do mercado acionário a reversões de fluxo — cenário que dependerá, mais uma vez, das condições internacionais e da trajetória das commodities, bem como do apetite por risco global.

A leitura tem implicações práticas para autoridades e para investidores. A dependência de capital externo reduz a margem de manobra do país frente a choques e reforça a necessidade de reformas e sinais de melhora estrutural para transformar alta pontual em recuperação sustentável. Até lá, a bolsa brasileira permanece exposta a volatilidade e a movimentos de capitais que podem inverter rapidamente a recente celebração do mercado.