O relatório de acompanhamento da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado acende alerta sobre a posição fiscal do país para 2027. A IFI projeta um déficit primário efetivo de aproximadamente R$ 86 bilhões — cerca de 0,6% do PIB — enquanto a proposta orçamentária do governo estima um superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões. Após as deduções legais usadas na apuração da meta, a IFI calcula um superávit de apenas R$ 900 milhões, insuficiente para atingir o limite mínimo determinado (0,5% do PIB). A discrepância entre estimativas ultrapassa R$ 104 bilhões e põe em xeque a narrativa oficial de equilíbrio das contas.
A divergência decorre, segundo a própria IFI, de premissas diferentes para receitas e despesas. A instituição adota postura mais conservadora e se aproxima do boletim Focus nas projeções: enquanto o governo trabalha com inflação de 3,6% para 2027, a IFI projeta 4% e o Focus indica 4,3%. Há também diferenças relevantes em despesas previdenciárias e em rubricas como BPC, abono salarial, seguro-desemprego e o custo de sentenças judiciais. Além disso, quase R$ 63 bilhões em despesas foram excluídos da apuração formal da meta, itens que, embora não contem na meta, pesam no resultado primário efetivo e na trajetória da dívida.
Para garantir o cumprimento das regras fiscais no ano que vem, a IFI estima a necessidade de um contingenciamento de despesas discricionárias da ordem de R$ 35,7 bilhões. A instituição alerta que esse corte recairia majoritariamente sobre investimentos, o que reduz espaço para políticas públicas e para a retomada de projetos de infraestrutura. A própria IFI considera esse montante difícil de ser alcançado sem custos reais na execução do governo — e, se alcançado, pode não resolver o problema estrutural que vem empurrando a dívida para cima mesmo quando a meta é formalmente cumprida.
O impacto político e econômico é direto: a percepção de risco fiscal afeta o humor dos investidores e tende a elevar os prêmios exigidos para financiar a dívida, comprimindo ainda mais o espaço fiscal via juros mais altos. A IFI chama atenção para o círculo vicioso entre desequilíbrio fiscal e custo de financiamento. Com margem limitada para elevar receitas — dada a carga tributária e o crescimento potencial da economia — o ajuste passa por controlar despesas obrigatórias e por propostas legislativas que mexam na estrutura de custos do Estado. Na prática, o relatório complica a narrativa governista sobre estabilidade das contas e transfere ao Congresso a tarefa de decidir entre cortes reais, novos instrumentos e o desgaste político de medidas impopulares. Para investidores e cidadãos, o sinal é claro: 2027 pode ser um ano de aperto, com menos investimento público e maior pressão sobre a credibilidade fiscal do país.