O diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Marcus Pestana, classificou como contraditória a narrativa do governo de que haveria uma 'folga' orçamentária ao mesmo tempo em que o Ministério da Previdência anunciou a suposta 'fila zerada' no INSS — estoque que, em fevereiro, havia superado 3 milhões de pedidos. Para a IFI, o espaço identificado pelo Executivo, de R$ 19,6 bilhões, fica muito aquém do que seria necessário para estabilizar a trajetória da dívida pública.
A instituição do Senado estima que, para criar condições de queda de juros e de estabilização da dívida, seria preciso um superávit primário na ordem de 2% do PIB — algo próximo de R$ 260 bilhões pelo parâmetro citado por Pestana. A IFI critica também a forma como o governo contabiliza 'bandas de tolerância' e ajustes de despesas, o que pode inflar a percepção de espaço fiscal disponível para reajustes como o do Bolsa Família (15,04%), anunciado com base nesse saldo alegado.
Do lado técnico, o Ministério do Planejamento afirmou que houve revisões para baixo nas projeções de despesas — entre elas benefícios previdenciários (redução de R$ 11,5 bilhões), BPC, pessoal e subsídios — e que fatores excepcionais, como receita extra de petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio, ajudaram a compor o resultado. No entanto, especialistas ouvidos e a própria IFI alertam que ganhos pontuais de receita não equivalem a solução estrutural para o desequilíbrio fiscal.
A contestação ao anúncio do fim da fila do INSS também tem base operacional: o ministério passa a considerar indicadores de fluxo e o tempo médio de concessão (citado em 34 dias em agosto) como prova de partida da fila, mas houve aumento em indeferimentos e há risco de que negativas elevem novamente o estoque de pedidos. Politicamente, a combinação de uma folga limitada e de sinais ambíguos sobre serviços sociais complica a narrativa oficial e acende um sinal de alerta sobre a necessidade de transparência — o governo terá de explicar a origem e a permanência desse espaço fiscal se quiser preservar credibilidade nas contas e nas políticas sociais.