O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou nesta semana um alerta técnico que amplia o custo político da proposta: segundo o professor de Economia do Insper Sergio Firpo, a forma de implementação é determinante para evitar um choque fiscal capaz de repercutir na taxa de juros e na qualidade das contas públicas. A observação reaponta uma contradição central da proposta — a redução da jornada tem impacto real nos custos das empresas e, sem mecanismos de transição ou compensação bem desenhados, quem paga a conta pode ser a sociedade inteira.

Firpo explica que a redução da jornada implica aumento de despesas para empregadores, seja por necessidade de contratar mais pessoal, seja pelo pagamento de horas extras. Em cenários assim, existe forte pressão política para aliviar o custo sobre as folhas de pagamento por meio de desonerações. Mas, nas próprias palavras do economista, o atual quadro fiscal do país não comporta esse tipo de concessão: reduzir tributos sem fonte de compensação equivaleria a transferir o ônus para o orçamento — com risco de ampliar o déficit e obrigar o governo a medidas impopulares ou ao ajuste por juros.

O efeito prático dessa deterioração fiscal pode ser direto e rápido: o Banco Central poderia enfrentar pressão para elevar a taxa de juros a fim de conter pressões inflacionárias decorrentes do choque de custos. Além disso, um espaço fiscal mais apertado tende a restringir investimentos públicos e aumentar a probabilidade de ajustes tributários futuros. Trata-se, portanto, de uma decisão com implicações macroeconômicas, não apenas trabalhistas, e que exige cálculo político por parte de quem propõe a mudança.

Há ainda dimensão distributiva relevante. Firpo recorda que cerca de 40% da força de trabalho está em ocupações sem carteira ou por conta própria. Nesse universo, a redução abrupta de horários e a eventual elevação dos custos para pequenos empregadores podem resultar em perda de empregos formais e empurrar mais trabalhadores para a informalidade. O efeito contraria o argumento de proteção social que costuma sustentar a mudança e acende alerta sobre o risco de agravar vulnerabilidades no mercado de trabalho.

Diante desses riscos, o economista defende uma transição longa — semelhante à proposta de adaptação ao longo de dez anos — que permita às empresas, especialmente os pequenos com margens reduzidas, ajustar operações sem recorrer a cortes de pessoal ou gerar necessidade de subsídios fiscais. Do ponto de vista editorial, a proposta coloca o governo e o Legislativo diante de um dilema: avançar com pressa sobre um tema sensível pode ampliar desgaste fiscal e institucional; optar por um cronograma mais longo exige disciplina e capacidade de articular medidas compensatórias que não comprometam a solvência pública.