As pequenas encomendas enviadas por plataformas internacionais registraram alta brusca depois que o imposto sobre compras de até US$50 — apelidado de "taxa das blusinhas" — foi zerado por medida provisória e transformado em lei em 10 de setembro. De uma média de 15,4 milhões de declarações nos quatro primeiros meses do ano, o total subiu para 20 milhões em maio, alcançou 28 milhões em junho e se manteve acima de 26 milhões em julho e agosto, segundo dados do programa Remessa Conforme compilados pela Abit.
Em valores, o efeito também é claro: a média de US$ 308 milhões entre janeiro e abril saltou para US$ 520 milhões nos quatro meses seguintes. No mês mais recente, foram 26,5 milhões de remessas declaradas — 74% mais que as 15,2 milhões registradas no mesmo mês do ano anterior — e o valor movimentado passou de US$ 294 milhões para US$ 526 milhões, alta de 79% em doze meses. Plataformas como Shopee, AliExpress e Shein aparecem como canais predominantes dessa pressão competitiva.
A Abit venceu o levantamento e pede que governo e Congresso restabeleçam equivalência tributária e regulatória entre produtos nacionais e importados. A entidade argumenta que o tratamento mais favorável dado às remessas de baixo valor, além da menor fiscalização, amplia desigualdades: há perda de mercado para empresas brasileiras que arcam com custos trabalhistas, ambientais e sanitários. Como resultado, a associação aponta queda da produção têxtil e de confecção — o IBGE mostra recuos de 6,8% e 8,2% em julho, na comparação anual — e risco real para empregos e investimentos.
Do ponto de vista fiscal e industrial, o quadro complica a narrativa oficial de estímulo à competitividade: a retirada do imposto reduziu barreiras de curto prazo ao consumo importado, mas ampliou pressões sobre a indústria doméstica, receita tributária e cadeia produtiva. Outros países têm reforçado fiscalização sobre plataformas; o Brasil, ao liberar o fluxo de remessas sem contrapartidas regulatórias, pode transferir renda e empregos para o exterior. Para a indústria, a alternativa pede medidas que equilibrem tratamento tributário e requisitos de conformidade, sob risco de aprofundar a desindustrialização do setor.