O aumento da inadimplência entre as famílias brasileiras começa a transpor o âmbito das finanças pessoais e ganha dimensão macroeconômica. Pesquisas e indicadores recentes, sintetizados por João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre, mostram que o peso do endividamento já absorve cerca de um terço da renda média das famílias — nível que reduz margem para consumo e, por consequência, para o crescimento do PIB.
Dois vetores agravam o problema: juros elevados e inflação persistentemente acima do ideal. Enquanto a taxa Selic orienta o custo do dinheiro no país, muitos consumidores recorrem a modalidades de crédito muito mais caras — notadamente o cartão rotativo — cujos encargos ultrapassam patamares proibitivos. Ao mesmo tempo, a inflação dos alimentos tem corroído a capacidade de compra, forçando cortes em despesas e atrasos em pagamentos.
Medidas de caráter emergencial, como o uso de recursos do FGTS para abater dívidas, oferecem alívio pontual, mas não atacam a raiz do problema. Segundo especialistas, sem um esforço de ajuste fiscal que permita reduzir juro de referência no médio prazo e sem políticas consistentes de educação financeira e regulação do crédito ao consumidor, a tendência é de agravamento: menos consumo, menor dinamismo econômico e mais famílias presas a modalidades de crédito predatórias.
O quadro acende um sinal para a política econômica: manter a estabilidade dos preços e trabalhar a conta pública são passos necessários para reduzir custos de financiamento no país. No curto prazo, contudo, a combinação entre comprometimento de renda, crédito caro e inflação coloca freio ao consumo e projeta impacto negativo sobre o ritmo de atividade no restante do ano.