O Brasil convive com uma inadimplência disseminada e de baixo valor individual: 27,5 milhões de CPFs com o nome negativado e uma dívida média próxima de R$ 1,1 mil, segundo levantamento da Assertiva obtido pela CNN. Os dados mostram um padrão de múltiplas pendências pequenas — mais relacionadas ao orçamento cotidiano das famílias do que a financiamentos elevados — e indicam dificuldade de saída do endividamento, já que esses CPFs foram consultados 57,3 milhões de vezes ao longo de 2025, ou cerca de duas consultas por pessoa no período.
O perfil demográfico revela equilíbrio de gênero (50,74% homens e 49,26% mulheres) e maior concentração entre 36 e 45 anos (22,77%), seguida por faixas de 46 a 55 anos (18,44%) e acima de 65 anos (18,23%). Uma amostra mais detalhada de 651 mil CPFs concentra 2,7 milhões de dívidas; há casos extremos com mais de 2 mil débitos em aberto, evidência de superendividamento em segmentos vulneráveis. Também chama atenção a queda do valor médio por pendência à medida que o número de débitos aumenta, sinalizando multiplicação de compras e cobranças pequenas.
O quadro tem efeito direto sobre a economia: consumidores negativados enfrentam restrição de crédito e reduzem gastos, limitando a recuperação do consumo — motor central do crescimento. O problema se reflete no sistema financeiro: dados do Banco Central apontam R$ 171,4 bilhões em operações com atraso superior a 90 dias em fevereiro de 2026. Além disso, em menos de dois anos do fim do primeiro programa de renegociação, o 'calote novo' superou em 15% o total renegociado, o que expõe fragilidade das soluções anteriores.
Diante desse diagnóstico, o governo trabalha na versão final do chamado Desenrola 2.0, que inclui descontos, contrapartidas e uma 'trava' para restringir o acesso a linhas mais caras, como rotativo do cartão e cheque especial. A proposta é legítima, mas enfrenta dilema: medidas que limitam crédito caro podem proteger famílias e o sistema bancário, porém também reduzem liquidez imediata de quem já vive apertos. Para ser efetivo, o programa precisará combinar renegociação, educação financeira e mecanismos que evitem recaídas — caso contrário, a iniciativa corre o risco de ser paliativa diante de um problema estrutural.