Um estudo recente da LCA Consultoria mostra que a inadimplência das famílias brasileiras voltou a subir e já se aproxima do pico histórico observado em 2012. Mais alarmante que o tamanho total do endividamento é a sua composição: os brasileiros já destinam mais de 9% da renda apenas ao pagamento de juros, e o crédito rotativo do cartão de crédito apresenta níveis de inadimplência superiores a 64%, segundo a consultoria.

Para a LCA, a tendência de alta da inadimplência é um fenômeno pós-pandemia. O diretor da consultoria registra que, apesar de indicadores macroeconômicos hoje parecerem mais favoráveis — desemprego em patamares reduzidos e renda em elevação, com inflação sob relativo controle — a deterioração do crédito das famílias persiste. Essa desconexão entre evolução do mercado de trabalho e comportamento do crédito aponta para um problema mais estrutural do setor financeiro e das condições de oferta de crédito.

O diagnóstico central do estudo é claro: não é tanto quanto as famílias devem, mas como elas se endividaram. O crescimento do uso de modalidades de curto prazo e de custo muito elevado — rotativo do cartão e cheque especial — concentra o risco. Em termos comparativos, o nível agregado de endividamento doméstico brasileiro não é necessariamente superior ao observado em alguns países desenvolvidos; o que diferencia é a qualidade do crédito, com taxas muito altas que comprimem orçamentos familiares e traduzem-se em menor capacidade de consumo e maior vulnerabilidade a choques.

A pesquisa também desmonta narrativas simplistas sobre causas individuais: gastos com apostas correspondem a apenas 0,46% do consumo das famílias, enquanto gastos com streaming chegam a ser quase o dobro desse montante. A LCA defende medidas em duas frentes: enfrentar as causas estruturais que mantêm as taxas de juros elevadas e ampliar de forma massiva a educação financeira desde a escola básica. Programas pontuais de renegociação, como o Desenrola Brasil, tratam sintomas, mas não atacam a causa. O quadro atual acende alerta para o governo e para o setor financeiro: sem mudança na estrutura de crédito e políticas públicas mais amplas, a pressão sobre consumo e a exposição das famílias a juros elevados devem persistir, com impactos políticos e econômicos relevantes.