A inadimplência no sistema financeiro alcançou 4,88% em julho, o maior patamar desde o início da série histórica em 2011, segundo dados do Banco Central. O cenário é fruto de um processo previsível: a oferta e procura por crédito cresceram quando a Selic esteve baixa na pandemia, mas o retorno do aperto monetário — que chegou a 15% ao ano em junho de 2025 — elevou o custo dos empréstimos e expôs famílias já endividadas.
Autoridades e especialistas ouvidos apontam que a origem do problema está na combinação entre afrouxamento extraordinário da política monetária e a rápida expansão de linhas emergenciais a pessoas físicas, produtos que normalmente vêm com prazos e taxas que aumentam o risco de inadimplência. Para muitos economistas, a política foi justificável no auge da crise sanitária, mas deixou legados que agora pesam no orçamento das famílias.
No recorte das operações para pessoas físicas, a inadimplência subiu para 5,81%, outro recorde. Medidas do governo, como o Novo Desenrola Brasil, ajudam a recompor o acesso ao crédito, mas também podem reativar demanda por endividamento sem atacar causas estruturais: crescimento estagnado da renda real e distribuição desigual limitam a capacidade de poupança e aumentam a dependência do crédito para consumo.
O risco apontado pelos economistas é que a deterioração do emprego e da atividade, caso se intensifique, transforme o ajuste de juros em um problema mais amplo para a economia: queda do consumo, maior restrição ao crédito e perda de ritmo na recuperação. Do ponto de vista político e econômico, o quadro impõe desafio duplo a gestores e ao mercado: controlar a inflação sem asfixiar famílias já pressionadas e evitar que o aumento da inadimplência se traduza em contração mais acentuada da economia.