O Relatório de Cidadania Financeira 2025, publicado pelo Banco Central em abril de 2026, confirma um fato conhecido: o Brasil avançou na bancarização. Segundo o estudo, 96,4% da população adulta já possui conta de pagamento ou conta bancária e há cerca de 117 milhões de clientes com carteira ativa. Mas o BC sublinha uma distinção central para qualquer política pública: ter uma conta não é o mesmo que usar os serviços financeiros de forma que gere resiliência e bem-estar econômico.

As inovações tecnológicas — Pix, Open Finance e Drex — e a expansão das contas digitais permitiram maior acesso, especialmente para trabalhadores informais, jovens e microempreendedores. Fintechs como exemplo de mercado têm liderado parte das transações e oferecido produtos com custo baixo ou gratuito, reduzindo barreiras de entrada. Ainda assim, o relatório aponta limites na qualidade do serviço, na educação financeira dos usuários e na proteção ao consumidor, fatores que determinam se a inclusão será sustentável ou apenas formal.

Um ponto sensível é o crédito sem garantia: o número de brasileiros com esse tipo de empréstimo mais que triplicou desde 2020, alcançando 41,7 milhões. Para o BC, o crédito pode proteger contra choques ou acelerar consumo, mas num país com altos índices de endividamento a ampliação indiscriminada dessa modalidade exige cuidado para não comprometer renda e estabilidade financeira das famílias. Outro sinal de fragilidade é o comportamento dos microempreendedores: menos da metade dos MEIs mantém relacionamento com instituições por meio de pessoa jurídica, o que reduz visibilidade e limita acesso a instrumentos que poderiam profissionalizar e ampliar negócios.

A conclusão pragmática do relatório é que a inclusão financeira no Brasil já é maior em termos de acesso, mas incompleta em uso e qualidade. Para transformar expansão tecnológica em ganho econômico real é preciso reforçar regulação, mecanismos de proteção ao consumidor e programas de educação financeira que apontem riscos e alternativas. Do ponto de vista público e do mercado, a lição é clara: sem foco em uso efetivo e em salvaguardas, o progresso na bancarização pode coexistir com crescimento do endividamento e com desperdício do potencial de formalização de microempresas.