Os números da inflação de abril, divulgados nesta terça-feira, chegam em meio a um cenário global marcado pela guerra no Oriente Médio e por revisões de mercado. No Brasil, a mediana do boletim Focus aponta para um IPCA de 0,69% em abril — desaceleração frente aos 0,88% de março, mas ainda em patamar elevado. O consenso do Daycoval é ligeiramente pior, estimando alta de 0,71%, com destaque para combustíveis, medicamentos e alimentos in natura.
Analistas consultados pelas revisões conjunturais atribuem a continuidade das pressões à escalada dos preços de energia e ao repasse de custos de frete para os alimentos, efeitos que se disseminam por cadeias produtivas. A deflação das passagens aéreas deve reduzir parcialmente a pressão nos serviços, mas o núcleo de serviços — itens intensivos em trabalho — permanece em nível elevado, sinalizando um desafio para o Banco Central na condução da política monetária.
Há ainda fatores de risco mais persistentes: a ocorrência esperada do El Niño no segundo semestre, segundo economistas do Inter, tende a encarecer alimentos e energia, pressionando a inflação no horizonte mais longo e alimentando projeções de IPCA acima do centro da meta em 2027. No front internacional, a projeção para o CPI dos EUA indica aceleração mensal, com impacto dos preços de energia enquanto o estreito de Ormuz segue afetado pela crise, mantendo volatilidade nos combustíveis e nos fretes.
Do ponto de vista político-econômico, a combinação de leituras de inflação ainda elevadas e revisões ascendentes das expectativas — o Focus já ajustou para cima a inflação de 2026 — amplia o custo político de eventuais cheques governamentais e complica a narrativa de controle de preços. Para o mercado e para o BC, a missão passa por conciliar a necessidade de conter a inflação subjacente com os efeitos externos e climáticos que continuam a impor riscos à estabilidade dos preços.