A recuperação sustentada da inflação americana até a meta de 2% tornou-se, nas palavras do estrategista Gustavo Cruz, um cenário difícil de imaginar. O núcleo do argumento está no conjunto de choques que hoje empurram preços para cima: além do impacto direto da instabilidade no Oriente Médio sobre energia, a expansão de tarifas e a guerra comercial dos Estados Unidos para além da China elevam custos de insumos e componentes importados que entram no consumo cotidiano americano.
Os números recentes reforçam a preocupação. O PCE, indicador de inflação preferido pelo Federal Reserve, subiu 0,2% em julho e acumula 3,7% nos últimos 12 meses — patamar muito acima dos 2% alvo. Cruz avalia que mesmo um acordo imediato sobre o Irã não apagaria automaticamente efeitos sobre preços de petróleo, gás e produtos derivados, e que a atual política tarifária amplia uma pressão estrutural: os americanos estão pagando mais por itens cuja cadeia de produção depende de insumos externos.
Na lógica do estrategista, essa combinação — tarifas alargadas, gastos fiscais elevados e juros que ainda não penalizam o consumo de forma contundente — reduz a probabilidade de uma retração do consumo capaz de levar a inflação de volta à meta. Cruz recomenda que o Federal Reserve adote postura conservadora e mantenha taxas relativamente altas por mais tempo; projeções oficiais que só devolvem o patamar de 2% em 2029 ganham, assim, um filtro cético.
A implicação para o Brasil é imediata: a janela para iniciar cortes mais agressivos de juros já passou, na avaliação de Cruz, que disse ter sido mais apropriado começar a reduzir a Selic em 2025 e não em 2026. Um ciclo de inflação americana mais longo e taxas internacionais elevadas tende a segurar decisões de política monetária por aqui, influenciar expectativas de mercado e retardar recuperação plena do consumo doméstico — fatores que pesam sobre crescimento e sobre a margem de manobra fiscal do governo.