A combinação entre uma economia brasileira que dá sinais de arrefecimento e uma inflação americana mais resistente pode empurrar para frente a sequência de cortes da Selic. Famílias e empresas que esperam crédito mais barato verão a trajetória dos juros domésticos condicionada não só ao desempenho dos serviços e da demanda interna, mas também ao comportamento do preço do dólar e às decisões do Federal Reserve.

Os dados locais contribuíram para a leitura de moderação: o volume de serviços recuou 0,1% em agosto, após estabilidade em julho, e ficou abaixo da expectativa de crescimento projetada por analistas. Em base anual o setor ainda registra avanço, mas uma leitura mensal fraca reforça que a atividade perde ritmo. Por si só, porém, esse indicador não é suficiente para abrir espaço automático a novos cortes pelo Copom.

Do lado externo, o CPI dos EUA surpreendeu para cima em setembro — com avanço mensal e aceleração na comparação anual, inclusive no núcleo que exclui alimentos e energia — em grande parte influenciado pela alta da gasolina. Uma inflação mais alta por lá mantém o Fed em posição mais restritiva ou, pelo menos, reduz a margem para afrouxamento. Mercados já refletem essa incerteza: títulos e moedas vêm sendo reprecificados ante a possibilidade de juros americanos mais altos, atraindo capital para ativos em dólar.

A transmissão para o Brasil é direta e tem implicações concretas: dólar mais caro eleva, em reais, o custo de importados e insumos industriais, abrindo espaço para repasses de preços ao consumidor. Isso reduz o “espaço” do Banco Central para baixar a Selic, mesmo diante de um crescimento mais contido. Em setembro o Copom já reduziu a taxa para 13,75% ao ano, mas citou mercado de trabalho aquecido, expectativas acima da meta e incertezas externas como razões para manter cautela.

O resultado prático é que desaceleração da atividade pode conviver com juros elevados por mais tempo. Para que o ciclo de cortes avance de forma consistente, será preciso ver uma queda sustentada das pressões de preços e uma acomodação das expectativas, além de estabilidade cambial. Até lá, decisões de consumo de longo prazo — financiamento imobiliário, investimentos e renegociação de dívidas — permanecem condicionadas a um custo de crédito potencialmente mais alto do que a demanda doméstica sugere.