A escalada dos preços nos Estados Unidos não pode ser atribuída apenas ao choque recente no Oriente Médio. A guerra com o Irã agravou a trajetória do petróleo — o componente de energia do PCE acumula alta de 15,3% em 12 meses —, mas indicadores centrais mostram pressões subjacentes que já vinham animando o debate entre economistas e formuladores de política monetária.

O núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia e é acompanhado pelo BEA, avançou 3,3% em 12 meses até julho, exercício que revela inflação acima da meta mesmo sem os itens voláteis. O FOMC também revisou projeções: a mediana aponta 3,7% para o PCE cheio neste ano e um retorno à casa dos 2% apenas em 2029, prazo mais longo que o projetado em junho — sinal de persistência inflacionária.

A composição desse movimento explica a dificuldade. Serviços fora de habitação continuam pressionando, bens voltaram a subir em função de tarifas de importação e do encarecimento de itens ligados à adoção de inteligência artificial. Há promessa de que ganhos de produtividade da IA revertam essa dinâmica; por ora, porém, a incerteza sobre quando e em que escala isso ocorrerá mantém uma camada estrutural de risco.

Para o Brasil, o impacto é direto: juros mais altos nos EUA e em outras economias (o Japão elevou taxas ao maior nível em 31 anos e o BCE também subiu) tornam os títulos estrangeiros mais atraentes e aumentam o prêmio exigido por investidores. O diferencial de juros ainda favorece entradas no país, mas essa vantagem depende da percepção de risco doméstico — problemas fiscais crescentes acendem alerta e podem inverter o fluxo.

O resultado prático seria menor apetite por investimentos, desvalorização do real, inflação importada e menor margem para cortes da Selic, com custo mais alto para financiar empresas e governos. A normalização da oferta de energia, redução de barreiras comerciais e ganhos de produtividade seriam as alavancas capazes de aliviar o quadro. Até lá, a continuidade da inflação global e a alta gradual de juros nas principais economias complicam a trajetória de redução do custo do crédito no Brasil.