O envio de quatro chips de inteligência artificial ao espaço pelos testes do Google virou mais do que curiosidade tecnológica: é um sinal de que a lógica que sustenta incentivos fiscais para data centers em terra pode estar ficando obsoleta. A justificativa técnica — energia abundante no topo da atmosfera — esbarra em limitações físicas importantes: calor difícil de dissipar no vácuo, radiação que corrói memória e impossibilidade de manutenção por anos. Essas restrições colocam a computação orbital, por enquanto, a serviço de tarefas sem pressa, como treinamentos em lote.
Do ponto de vista econômico e fiscal, porém, a questão é política. O Brasil acaba de oferecer isenção tributária por cinco anos para atrair data centers ao território nacional, apostando em terra barata e energia limpa como vantagem competitiva. Se a computação migrar para uma frota de satélites, o destinatário desses incentivos desaparece: quem oferece benefício a um satélite que não tem endereço e sobrevoa fronteiras a cada noventa minutos? A consequência real é a perda de controle sobre a base tributária que se esperava mobilizar para construir infraestrutura local.
Há ainda um problema de concentração: o bem escasso deixa de ser o terreno ao lado da hidrelétrica e passa a ser a vaga no foguete e a faixa de órbita — recursos dominados por poucas empresas, notadamente a dona do meio de lançamento. Isso muda a dinâmica de poder entre estados e corporações e eleva o risco de dependência tecnológica. A aposta pública em dar isenção para servidores terrestres pode, assim, financiar obras que acabarão servindo a cadeias produtivas estrangeiras, com retorno pouco claro para o contribuinte e fragilizando a noção de soberania sobre dados.
O diagnóstico não é uma condenação sumária da inovação: parte do processamento pesado sempre fará sentido fora da pressa do usuário. Mas o avanço da computação orbital exige resposta política: revisão de incentivos fiscais, regras claras sobre jurisdição e tributação de serviços espaciais, e estratégia para evitar que investimentos públicos se convertam em benefício unilateral de atores privados. Sem isso, o governo corre o risco de ver recursos públicos transferidos para um ecossistema que não deixa endereço.