Um encontro em Londres reuniu cerca de 200 profissionais do setor de energia para debater aquilo que, meses atrás, parecia remoto: a volta do capital estrangeiro ao petróleo venezuelano. A mobilização privada — artistas de investimentos, traders e companhias de óleo e gás — serve de aquecimento para a Venezuela Energy Week, prevista para outubro em Caracas, e sinaliza mudança de clima após intervenções políticas internacionais no início do ano.
A mudança de cenário tem origem política e regulatória. Após a retirada do então-presidente em janeiro, empresas como a Apertura Energy recalibraram estratégias para aproveitar reformas do governo de Delcy Rodríguez, que aboliram a exigência de participação majoritária da estatal PDVSA em novos projetos. Paralelamente, Washington afrouxou parte das restrições para viabilizar vendas e exportações, com reflexo imediato: segundo dados da Vortexa, a Venezuela exportou 28 milhões de barris no mês passado, alta de quase 69% em relação ao ano anterior, com mais da metade destinada aos Estados Unidos e cerca de um quarto à Índia.
O quadro, porém, é de risco pronunciado. Palestrantes no evento apontaram a infraestrutura debilitada, a incerteza política e os efeitos de desastres recentes como barreiras concretas à operação. Executivos do setor já haviam advertido que a recuperação exigirá investimentos pesados e que, para algumas grandes empresas, o negócio pode não ser viável na prática. Do lado político, a administração americana afirma ter arrecadado mais de US$ 13 bilhões com vendas desde a captura do líder deposto, deixando em aberto a gestão desses recursos e gerando cobranças por transparência no Congresso.
Para investidores, o quadro é uma equação de risco-retorno: reservas volumosas e demanda por óleo pesado criam oportunidade comercial, mas custos de reconstrução, riscos geopolíticos e reputacionais elevam o preço da aposta. O movimento também tem implicações geoestratégicas e eleitorais — tanto para quem busca ganhos imediatos no mercado quanto para governos que precisem justificar parcerias e receita associada. Em suma, a abertura venezuelana acende alerta sobre ganhos potenciais, mas complica a narrativa de retorno rápido e sem custos.