O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,62% em maio, segundo dados do IBGE. O resultado veio acima da mediana das projeções de mercado (0,53%) e elevou o acumulado em 12 meses para 4,64%, contra 4,37% em abril — um patamar que supera o teto da meta perseguida pelo Banco Central (4,5%) pela primeira vez no ano.

Os principais vetores da alta foram Alimentação e Bebidas (+1,38%) e Habitação (+1,03%). No primeiro grupo, itens como batata-inglesa (26,29%), tomate (12,97%), leite longa vida (6,07%) e carnes (1,98%) exerceram pressão sobre os preços no domicílio, enquanto maçã e café moído registraram recuos pontuais. Na habitação, a energia elétrica residencial subiu 2,16% com a vigência da bandeira tarifária amarela, que passou a cobrar R$1,885 a cada 100 kWh.

Pablo Spyer (Ancord): A prévia de maio veio acima do esperado e mostra que a desinflação no Brasil é lenta e tem alcance amplo, sobretudo em alimentos e serviços.

Ao mesmo tempo, Transportes foi o único grupo a registrar deflação (-0,33%), puxado pela queda nos combustíveis — etanol (-2,73%), óleo diesel (-2,04%) e gasolina (-1,32%) — e apesar do avanço das passagens aéreas (+3,25%). Esse contraste mostra que choques setoriais e ações pontuais sobre preços de combustíveis explicam parte do movimento, mas não neutralizam a pressão disseminada observada em alimentos e serviços.

Analistas destacam o caráter mais persistente da inflação: tanto o núcleo do IPCA-15 quanto os preços de serviços subiram 0,46% em maio, indicando que a alta não está restrita a itens voláteis. Para agentes do mercado, o número reforça que o processo de desinflação segue lento e sujeito a choques de oferta — do clima à geopolítica — que podem manter preços pressionados nos próximos meses.

A leitura complica o ambiente para a política monetária. O Banco Central reduziu a Selic para 14,5% em abril, mas a surpresa do IPCA-15 amplia a necessidade de cautela do Copom nas próximas reuniões. No plano fiscal e político, medidas emergenciais anunciadas pelo governo para conter combustíveis — incluída, segundo fontes, subvenção à gasolina de R$0,44 por litro — aliviam o impacto imediato sobre o consumidor, mas suscitam debate sobre custo fiscal e eficácia de soluções temporárias diante de pressões de oferta mais amplas.

André Valério (Inter): A desaceleração frente a abril é bem-vinda, mas insuficiente para dar maior tranquilidade ao Copom na condução da política monetária.