Os mercados viram uma nova onda de ofertas públicas no setor de energia: US$ 12,6 bilhões captados no primeiro semestre, o maior volume desde a bolha da internet em 1999 e quase três vezes o total de 2025, aponta compilação da Dealogic citada pelo Financial Times. O fluxo é explicado pela busca de investidores por exposição indireta à revolução da inteligência artificial, que tem na infraestrutura elétrica um gargalo crítico para sua expansão.
A relação é direta: data centers de IA consomem volumes gigantescos de eletricidade — estimativas mencionam cerca de 876 mil MWh por ano para um único centro, equivalente ao consumo residencial de uma cidade de 650 mil habitantes — e a demanda por energia nos EUA pode subir 39% na próxima década, segundo a consultoria ICF. Na prática, isso desloca capital não apenas para provedores de chips e software, mas para usinas, geradores, redes e projetos de geração alternativa e até reatores modulares.
O movimento, porém, carrega sinais de alerta. Entre estreias recentes destacam-se operações volumosas — como a SpaceX, avaliada acima de US$ 1 trilhão após captação bilionária — e casos de captações relevantes em fabricantes e integradores de energia. Ainda assim, quase dois terços das empresas do setor que abriram capital entre 2025 e 2026 negociam abaixo do preço de oferta, com quedas expressivas em nomes como X‑energy, ERock, Fermi e Deep Fission. Analistas apontam que parte das companhias sustenta-se em projetos sem comprovação técnica ou viabilidade comercial, elevando a probabilidade de ajustes no preço das ações.
Do ponto de vista econômico e institucional, a corrida por ativos ligados à infraestrutura de IA tende a pressionar avaliações e a exigir maior escrutínio por parte de investidores e reguladores. Para governos e operadores de rede, o episódio destaca a necessidade de planejamento de capacidade, regulação clara e atração de investimentos sólidos — não apenas entusiasmo financeiro — para evitar que correções de mercado comprometam projetos estratégicos. Em suma: há oportunidade, mas também uma conta a ser cobrada por quem apostar sem distinguir escala, tecnologia comprovada e modelos de negócio críveis.