A sinalização do diretor-geral brasileiro de Itaipu, Enio Verri, de que a tarifa da hidrelétrica será reduzida a partir de 2027 marca uma inflexão que transcende um ajuste contábil. Com a quitação do passivo histórico que penalizava o preço da energia, abre-se espaço para uma reprecificação mais próxima do custo operacional — mudança com impacto direto sobre as tarifas das distribuidoras do Sul e Sudeste e, por consequência, sobre as expectativas de inflação no médio prazo.
Estima-se que a correção tarifária possa ser relevante — cálculos preliminares apontam para uma ordem de grandeza na casa de 30% — e seu efeito é duplo. No plano macro, energia mais barata ajuda a aliviar pressões inflacionárias e a reduzir o custo de capital ligado ao risco-país e à trajetória de preços. No plano micro, distribuidoras e consumidores finais podem registrar diminuição de entraves tarifários, o que tem efeitos sobre consumo, competitividade industrial e contas públicas vinculadas a subsídios setoriais.
O movimento, contudo, não é apenas técnico; entra de cabeça em disputas distributivas e diplomáticas. O Paraguai depende da venda do excedente de Itaipu ao Brasil como fonte significativa de receita em moeda forte. Reduzir a tarifa sem uma estratégia de compensação significa transferir renda entre os países, o que torna a revisão do Anexo C um tema sensível — exigindo compensações financeiras e acordos políticos ainda não detalhados. Essa negociação pode impor custos políticos domésticos e internacionais, além de demandar clareza sobre quem arcará com eventuais perdas de receita no curto prazo.
Há também uma dimensão estratégica mais ampla: ao se transformar em fonte de energia de baixo custo estrutural, Itaipu reforça seu papel de lastro hidráulico num sistema cada vez mais dependente de renováveis intermitentes. Isso eleva o valor operacional da usina para a segurança do sistema, mas traz perguntas sobre a governança do ativo, a transparência na redistribuição dos ganhos e o desenho de políticas públicas para aproveitar a folga tarifária sem criar novas distorções. Em resumo: a perspectiva de energia mais barata é positiva para a economia, mas chega acompanhada de exigências de negociação e de escolhas políticas que serão decisivas até 2027.