A combinação de Selic elevada, crédito restrito e aumento do endividamento colocou empresas brasileiras em um ponto de ruptura. Com a taxa básica próxima de 15% durante boa parte do ano passado, o custo de financiamento subiu de modo que negócios que se alavancaram em período de juro baixo hoje encontram dificuldade para honrar compromissos. O resultado prático é o salto nos pedidos de recuperação judicial e no número de CNPJs negativados.

Dados da Serasa Experian mostram que 2.466 empresas procuraram reestruturar dívidas no último ano, enquanto, entre o início de 2025 e julho, cerca de 8 milhões de CNPJs estavam negativados — um aumento mensal de 200 mil negócios. Para especialistas em recuperação, a transição de um ambiente de juros baixos para outro de custos financeiros elevados tornou a alavancagem de muitas companhias insustentável, ampliando o desgaste financeiro e institucional do setor privado.

O problema não se limita às pequenas empresas. Levantamento do consultor Einar Rivero indica que a dívida agregada de 248 companhias listadas subiu de R$ 1,4 trilhão em 2020 para R$ 2,3 trilhões em 2025; excluída a Petrobras, o total fica em R$ 1,9 trilhão. A transmissão via encarecimento do crédito, sinalizada por economistas como Alex Agostini, reduz a capacidade operacional e impede, muitas vezes, o repasse integral do custo ao preço final, comprimindo margens e aumentando a probabilidade de inadimplência.

O impacto é desigual: o setor agropecuário concentrou 743 pedidos de recuperação em 2025 — 30,1% do total — e varejo e serviços também aparecem entre os mais pressionados, reflexo da soma entre crédito caro e poder de compra enfraquecido do consumidor. Pequenas empresas, com acesso limitado a linhas competitivas e sem alternativa fácil ao mercado de capitais, ficam mais vulneráveis; para muitas, a recuperação judicial pode significar perda imediata de fornecedores e financiamento.

Mesmo com o início de um ciclo de cortes na Selic, os efeitos sobre recuperações e sobre o estoque de dívidas devem demorar a se materializar. A leitura política é clara: o cenário acende alerta para o governo e para reguladores sobre a urgência de medidas que ampliem o acesso ao mercado de capitais e fortaleçam governança corporativa nas PMEs. Sem mudanças estruturais, o aumento das recuperações e a pressão sobre o emprego e a cadeia produtiva tendem a persistir, com custo econômico e político relevante.