O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia deixou claro que a crise que atinge o varejo não é só uma falha de gestão de uma rede: é o reflexo de um ambiente de crédito muito caro que persiste há anos. Juros em dois dígitos encarecem investimentos, aumentam o custo de rolar dívidas e comprimem margens. Na ponta da demanda, famílias com renda cada vez mais comprometida por parcelas e serviços financeiros veem a capacidade de comprar bens duráveis reduzir-se, alimentando um círculo de queda de vendas e maior pressão por crédito rotativo.

A dinâmica é dupla e perniciosa. Para os varejistas, o custo financeiro mais alto transforma em difícil a manutenção do fluxo de caixa e a expansão das operações. Para as famílias, o crescimento do endividamento — em parte alimentado por empréstimos tomados para cobrir necessidades básicas e, conforme apurado, por passivos ligados a apostas — empurra muitos consumidores à beira da inadimplência. O resultado é um mercado de consumo menos propenso a compras de maior valor, o que agrava a crise em toda a cadeia do varejo.

No plano fiscal, o arcabouço aprovado para disciplinar despesas enfrenta críticas práticas. As diversas exceções às regras tornam possível ao governo alegar cumprimento formal, sem, no entanto, demonstrar que a trajetória da dívida está sob controle. Essa lacuna mina a credibilidade diante do mercado e reduz espaço para políticas que possam aliviar o custo do crédito sem sacrificar a solvência do Estado. Em outras palavras: técnica fiscal sem clareza sobre cortes reais não reverte a crise de confiança que pressiona juros e investimento.

O quadro tem implicações políticas claras para 2026. Presidenciáveis evitam, por conveniência eleitoral, indicar medidas impopulares — cortes nominados ou reformas que impactem despesas obrigatórias — e, com isso, deixam em aberto o plano para recuperar a confiança fiscal. Essa omissão amplia desgaste sobre qualquer gestor que herdar a agenda econômica e reduz as alternativas para aliviar o aperto de crédito. Sem decisões explícitas e credíveis sobre redução de despesas e ajuste institucional, o país seguirá preso a juros altos, consumo retraído e custos maiores para empresas e famílias.