A combinação de juros elevados e inadimplência em alta colocou um dilema central para a economia: aliviar o custo do crédito sem provocar novo choque nas contas públicas. A gestora WHG, em apresentação do economista Fernando Fenólio, alerta que o serviço da dívida — juros e amortizações — já consome cerca de 30% da renda do setor privado, acima dos 25% observados no auge da recessão de 2015/16. Os dados do Banco Central confirmam a deterioração do crédito: a inadimplência da carteira total atingiu 5%, o patamar mais alto da série, com pessoas físicas em 6% e empresas em 3,3%.
Para as empresas, a pressão tem origem em parte nas captações feitas quando a Selic estava em 2% a.a. — muitas dívidas são pós-fixadas ao CDI e ficaram mais onerosas à medida que a taxa subiu. A WHG calcula que, em média, companhias desembolsam R$ 35 em juros e amortizações a cada R$ 100 tomados em crédito; entre grandes empresas com acesso ao mercado de capitais o número é R$ 32, o maior em 15 anos. Esse aumento do serviço da dívida corrói caixa e tende a reduzir investimentos, contratações e capacidade de expansão.
O crescimento do mercado de capitais e do crédito privado mudou quem arca com o risco: bancos perderam espaço e fundos e investidores passaram a ter maior exposição por meio de debêntures e títulos privados. A inadimplência em crédito pessoal não consignado concedido por fintechs já chega a 10,6%, segundo a análise da WHG, próximo aos picos de 2015/16, mas sobre uma base de crédito maior. Fenólio chama atenção para o efeito: uma onda de reestruturações corporativas não bateria só nos bancos, mas nas carteiras de investidores que compraram esses papéis.
O quadro gera consequências políticas e econômicas claras. O próximo governo terá de conciliar dois objetivos conflitantes: promover ajuste fiscal que abra espaço para a redução dos juros e, ao mesmo tempo, evitar que a pressão sobre receitas e contratos privados gere uma crise de crédito e perdas generalizadas a investidores e fundos. É uma equação de custo político e econômico — reduzir juros sem um ajuste crível amplia risco inflacionário; acelerar o ajuste pode apertar ainda mais famílias e empresas. O diagnóstico da WHG acende um alerta sobre a necessidade de prioridades claras e uma estratégia que minimize contágio entre empresas, consumidores e mercados financeiros.