Os altos custos financeiros, as disputas societárias e a rápida transformação do consumo explicam parte do surto de pedidos de reestruturação entre grandes empresas brasileiras, afirma o consultor João Nogueira Batista em entrevista ao especial “A Crise de Grandes Marcas”, do CNN Money. Segundo ele, o impacto é particularmente severo no varejo, que depende de capital de giro e sofreu com anos de taxa de juros reais elevadas.
O caso das Casas Bahia ilustra o efeito combinado desses fatores: a varejista entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, com R$ 17,3 bilhões em dívidas formais e passivo total que supera R$ 27,8 bilhões. Antes disso, em 2024, a empresa já havia recorrido a uma renegociação extrajudicial de cerca de R$ 4,1 bilhões para alongar prazos e reduzir desembolsos, tentativa evidente de ganhar fôlego para um plano de transformação em curso.
Batista relaciona a queda de produtividade de redes físicas à expansão do comércio eletrônico e à mudança no comportamento do consumidor. Lojas com grandes parques passaram a acomodar espaços ociosos e custos fixos elevados, enquanto a competição digital se intensificou. Além disso, a sucessão em empresas familiares e a profissionalização da gestão nem sempre se traduzem em solução automática, o que complica a travessia de períodos de estresse.
No campo institucional, a aprovação pelo Congresso da MP que zera o imposto de importação para compras até US$ 50, em 3, provoca reação de setores que alertam para aumento da assimetria competitiva com plataformas estrangeiras. Para analistas, a combinação entre política fiscal, estrutura de capital e falhas de governança corporativa amplia o desafio: não é apenas uma crise empresarial, mas um teste para políticas industriais e para a capacidade do setor privado de se adaptar sem transferir custos relevantes à economia.