Em um pregão marcado por baixa liquidez e problemas técnicos na B3, a curva de juros reagiu de forma errática, com os vértices médios e longos registrando mínimas intradiárias e um movimento de queda que foi praticamente anulado ao final da sessão. O DI para janeiro de 2027 recuou marginalmente de 13,818% para 13,81%; o contrato para janeiro de 2029 oscilou até 14,13%; e o DI para janeiro de 2031 teve leve baixa a 14,39%, vindo de 14,41%. No curto prazo a ponta já operava em queda na semana que antecede a decisão do Copom, perfil coerente com a expectativa de cortes na Selic.
Os movimentos, porém, ganharam sentido quando observados em horizonte maior: no mês, a curva apresentou inclinação. Em julho o DI para 2027 caiu cerca de 20 pontos-base, o miolo da curva cedeu aproximadamente 35 pontos e a ponta longa subiu perto de 15 pontos no contrato para 2031. Lá fora, a alta dos Treasuries e sinais de divergência na política do Fed também pressionaram prêmios de prazo: títulos americanos de 30 anos alcançaram níveis não vistos desde 2007, segundo analistas.
Nada parecia justificar o alívio observado, especialmente por operar em sentido contrário ao exterior, resumiu um operador que preferiu não se identificar.
O quadro fiscal agrava o cenário. O resultado primário do setor público consolidado veio com déficit de R$ 55,313 bilhões em junho, acima da mediana das projeções, o que alimentou dúvidas sobre trajetória da dívida e necessidade de financiamento. Para parte do mercado, a combinação entre deterioração fiscal e continuidade do ciclo de queda da Selic cria um trade-off: taxas básicas mais baixas suportam atividade, mas aumentam a sensibilidade do preço da dívida a incertezas e prêmios de risco no longo prazo.
A leitura política-econômica é direta: a inclinação da curva é um termômetro de incerteza — inclusive eleitoral — e transmite custo adicional para o Tesouro e para investidores. Em curto prazo, o Copom tem espaço para reduzir a Selic, mas a persistente deterioração fiscal pede disciplina. Se o governo não demonstrar controle das contas, a tendência será de maior volatilidade e custo de rolagem da dívida, mesmo num ambiente externo que também exige atenção.