Os números da PNAD divulgados pelo IBGE trazem um paradoxo: a renda média do brasileiro atingiu R$ 3.367, mas a desigualdade continua em alta. A média agrupa salários, aposentadorias, benefícios e rendimentos financeiros, o que oculta a distância entre grupos com capacidade de poupar e os que vivem no limite do orçamento.

Para Carla Beni, professora de economia da FGV, a estrutura atual de juros no Brasil é um fator-chave desse descolamento. Com Selic em dois dígitos por anos, quem consegue poupar obtém ganhos ampliados pelo juro composto; por outro lado, quem recorre ao crédito paga taxas muito mais altas, reduz consumo e capacidade de investimento — um mecanismo que reforça a concentração de renda.

Outros vetores presentes na PNAD aprofundam o quadro: nível educacional define faixas salariais distintas, e a inflação sobre alimentos pesa de modo desproporcional nas famílias de menor renda. Beni ainda chama atenção para novo padrão de endividamento — incluindo apostas — que tem efeitos reais no consumo básico. A dinâmica regional também é desigual: o destaque do Centro‑Oeste vem, em grande parte, do Distrito Federal, impulsionado por servidores e novas contratações.

Além do impacto social, a combinação de juros altos e inflação acende alerta político e econômico: a manutenção prolongada da taxa amplia desgaste sobre a estratégia macroeconômica e exige respostas em políticas públicas, redesenho de programas sociais e foco em educação para reduzir a assimetria de renda. O resultado é uma agenda com custo político crescente para quem decide manter o atual patamar de juros.