O aumento das taxas de juros no Brasil tem acelerado a escalada das dívidas das famílias, apontam especialistas. Segundo José Carlos de Souza, da FIA Business School, o atual arranjo combina oferta ampla de crédito — especialmente por meio de cartões — com um custo financeiro elevado, o que torna fácil contrair dívida e difícil pagá‑la quando as parcelas começam a subir.
O problema ganha intensidade quando parcelas atrasam: juros e encargos fazem os saldos crescerem rapidamente, transformando débitos aparentemente administráveis em montantes que fogem ao controle. Dados do Banco Central mostram alta na inadimplência mesmo após programas de renegociação, o que indica que ações pontuais não estão rompendo o padrão de reincidência entre os consumidores.
Propostas em análise pelo governo, como nova fase do programa de renegociação (chamada informalmente de Desenrola 2.0) ou o uso do FGTS para quitar dívidas, prometem reduzir a pressão no curto prazo. Mas, como ressalta o professor, essas medidas trazem risco de transferir renda futura para o presente: sem melhora da renda real e sem redução do custo do crédito, a solução pode ser temporária e gerar fragilidade financeira adiante.
O diagnóstico tem implicações políticas e econômicas claras: a persistência do superendividamento limita consumo, aumenta vulnerabilidade social e deixa o governo exposto a cobranças por soluções que não atacam causas estruturais. Reduzir juros reais, regular melhor o mercado de cartões, ampliar educação financeira e fortalecer rendas são passos necessários; do contrário, programas de renegociação continuarão a ser paliativos que apenas adiam a próxima crise para famílias e para a economia.