O acúmulo de dívidas das famílias em 2026 acendeu um sinal de alerta para o varejo. Apesar de o mercado de trabalho registrar as menores taxas de desocupação da série histórica e a massa de renda ter atingido R$ 354,564 bilhões até dezembro de 2025, a combinação de inadimplência crescente e juros altos reduz a capacidade de consumo das famílias.

Para economistas do mercado, a fotografia é de contradição: o emprego e a renda dão sustentação às vendas, mas o custo do crédito e o aumento do comprometimento da renda com dívidas limitam qualquer avanço consistente. Guilherme Freitas, economista-chefe da Stone, descreveu esse equilíbrio frágil como um 'voo de galinha' para segmentos que dependem diretamente do consumo financiado. O Índice de Varejo Stone mostrou crescimento de 5,5% em março e 6,4% em relação a 2025, mas a perspectiva segue contida.

O Banco Central também sinaliza preocupação. Mesmo após um corte de 0,25 ponto, a Selic permanece em 14,75% ao ano, e o BC registrou recorde de saques por pessoas físicas em dezembro de 2025, além do maior nível do comprometimento da renda com dívidas na série histórica em janeiro. Em relatório recente, a autarquia apontou o superendividamento como um problema em expansão.

No varejo, o efeito se materializa por canais diretos e indiretos: juros elevados encarecem o custo financeiro das empresas e reduzem o ímpeto de compra das famílias. Economistas da CNC e executivos do setor chamam atenção para perdas maiores em bens duráveis, veículos e material de construção — áreas mais dependentes de parcelamento e financiamento. A PMC do IBGE registrou queda de 3% nas vendas de veículos em 2025, ilustrando essa vulnerabilidade.

O cenário deixa o setor diante de decisões difíceis: pressão por eficiência operacional, redução de sortimento e menor ritmo de expansão. Para a economia como um todo, a combinação de crédito restrito e receita disponível limitada pode frear investimentos e reduzir dinamismo. A conjuntura coloca na mesa o trade-off entre manter juros elevados para controle macroeconômico e evitar que o aperto financeiro corroa a recuperação do consumo.