Os últimos números de inflação divulgados no Brasil, nos Estados Unidos e na China mudaram o humor dos mercados e reduziram apostas em cortes de juros. A combinação da guerra no Oriente Médio, a alta do petróleo e novas pressões sobre cadeias globais de produção empurra expectativas para uma trajetória de juros mais alta por mais tempo, com efeitos imediatos sobre bolsas, migração para renda fixa e custo do crédito — um problema mais sensível para economias como a brasileira.
A China, que nos anos recentes funcionou como exportadora de deflação global, dá sinais de perda desse papel. Preços ao produtor em alta, pressionados por combustíveis mais caros, aumento do frete e disrupções logísticas, começam a transmitir inflação para o resto do mundo. Para analistas como Cristiano Oliveira, isso amplia a pressão inflacionária num momento em que os bancos centrais já enfrentam dificuldades; Oliveira projeta IPCA em 5,5% neste ano e 5,6% em 2027, e mantém Selic em 13,25%, sem descartar elevação caso choques externos ou climáticos persistam.
Há convergência também no mercado de trabalho: os EUA continuam mostrando alguma resiliência (Payroll de abril com 115 mil vagas, desemprego em 4,3% e salários +3,6% em 12 meses), enquanto o Brasil registra vagas formais positivas (Caged +228 mil em março) e desemprego em 6,1% (PNAD). Esse quadro sustenta inflação de serviços — mais difícil de combater com juros — que acumula alta robusta nos segmentos intensivos em mão de obra: acima de 6% no Brasil e com pressões também nos EUA, segundo cálculos setoriais.
Para o governo e o Banco Central, o cenário combina fatores favoráveis e riscos: petróleo em alta pode pressionar preços, mas também há espaço setorial; por outro lado, o risco fiscal e a inflação de serviços reduzem a capacidade de afrouxar a política monetária sem custo. Em termos práticos, o resultado é uma janela mais estreita para cortes da Selic, maior sensibilidade da economia ao custo do crédito e necessidade de foco em disciplina fiscal e políticas que atuem sobre oferta — único caminho para devolver previsibilidade e recuperar margem de manobra.