Uma pesquisa do Datafolha que aponta 67% dos brasileiros com algum tipo de dívida revela um quadro de vulnerabilidade que extrapola escolha individual e esbarra em decisões macroeconômicas. Em entrevista ao Agora CNN, Jeferson Bittencourt, líder de macroeconomia do ASA, relacionou diretamente o atual patamar de juros ao aprofundamento do sobreendividamento e ao aumento do risco de insolvência entre famílias.
Na avaliação do especialista, a combinação de uma taxa de juros sustentada em níveis elevados e a expansão de programas de crédito nos últimos anos — com destaque para iniciativas surgidas após o primeiro Desenrola de 2023 — criou um ambiente em que novo acesso ao crédito acabou virando catalisador de mais dívidas. Soma-se a isso o baixo poder de compra e o nível de renda, que pressionam consumidores a postergar contas básicas para preservar consumo imediato.
Para reverter esse ciclo, Bittencourt indica um caminho que passa por aceitar atividade econômica mais fraca no curto prazo e, principalmente, por um ajuste fiscal duradouro que dê espaço para juros mais baixos de forma estrutural. A recomendação tem implicações políticas claras: uma agenda de consolidação fiscal exigirá medidas com custo social e político, testando a capacidade do governo de combinar responsabilidade fiscal com mitigação dos efeitos sobre a população mais vulnerável.
Além do eixo fiscal-monetário, o especialista destaca a deficiência de educação financeira como fator que agrava o problema. Sem informação e mecanismos de proteção adequados, a oferta de crédito — mesmo quando ampliada com objetivos sociais — pode transformar-se em armadilha. O retrato do Datafolha acende alerta sobre o desafio duplo: reduzir juros por meio de credibilidade fiscal e melhorar a gestão do crédito para evitar que políticas públicas ampliem, em vez de aliviar, o endividamento.