A trajetória de juros no Brasil, que vinha alimentando a expectativa de alívio após dois cortes que levaram a Selic a 14,5%, sofreu um revés que amplia a incerteza sobre o ciclo de afrouxamento. Em entrevista ao programa Café com Investidor, o sócio da Encore Asset, João Luiz Braga, avaliou que o cenário promissor do começo do ano foi fragilizado por choques geopolíticos que pressionaram preços internacionais e se traduziram em nova pressão inflacionária doméstica. O resultado: uma queda mais lenta e condicionada a fatores externos fora do controle das autoridades.

Os impactos vindos de fora — em especial a escalada no preço do petróleo e dos fertilizantes — têm efeito direto sobre custos na economia brasileira. Indicadores setoriais confirmam o problema: o INCC, que mede custos da construção, opera perto de dois dígitos, e a inflação de alimentos também tende a pressionar índices nos próximos meses. Braga faz distinção crucial entre inflação de demanda e choques de oferta: políticas monetárias rígidas têm limite para corrigir problemas de oferta, e a combinação de juros altos com custos externos mais elevados pode agravar a perda de consumo em outros setores.

O caráter estritamente anti-inflacionário do Banco Central brasileiro, com mandato focado na estabilidade de preços, explica a postura mais conservadora da autoridade. Com esse desenho institucional, a queda rápida e expressiva da Selic foi postergada — e a narrativa de redução gradual passa a depender da dissipação dos choques externos e da evolução dos preços administrados. Para o mercado, a postergação tem efeitos claros: embora a tese de redução continue válida e potencialmente positiva para a Bolsa, o adiamento corrói parte do otimismo e reabre dúvidas sobre a velocidade de recuperação do crédito e do consumo.

Do ponto de vista prático, o adiamento dos cortes aumenta o custo de capital no curto prazo e pressiona margens empresariais já fragilizadas pela alta de insumos. Politicamente, o cenário complica a narrativa oficial de normalização rápida da política monetária e acende alerta para gestores que vinham contando com juros mais baixos para equilibrar contas e estimular investimentos. A leitura de Braga é clara: a redução dos juros não foi enterrada, mas foi limitada por forças externas — o que mantém o risco de mais volatilidade e exige atenção a novos dados de inflação e ao desenrolar das tensões internacionais.