Um estudo do Ibevar, em parceria com a FIA Business School, documenta uma assimetria clara na transmissão da taxa básica de juros ao consumidor. A partir de 185 meses (15 anos) de dados do Banco Central, os pesquisadores concluíram que variações na Selic chegam com atraso e intensidade diferentes ao crédito: em média, cada ponto percentual na Selic correspondeu a cerca de 1,5 ponto percentual na taxa cobrada ao consumidor, mas a amplitude observada é muito mais ampla em casos específicos.

Os autores mostram que o repasse não é simétrico: quando os juros sobem, o efeito sobre as taxas ao consumidor tende a ser mais rápido e mais intenso do que o alívio observado quando a Selic cai. A transmissão pode levar de um a três meses para alcançar as parcelas do crédito — atualmente o estudo estima um prazo médio de cerca de dois meses para que cortes recentes impactem a ponta. Claudio Felisoni, coordenador do trabalho, ressalta que a intensidade do repasse varia conforme o contexto, podendo oscilar substancialmente entre diferentes episódios.

O estudo aponta causas plausíveis para essa assimetria: maior insegurança, níveis elevados de inadimplência, percepção de risco pelas instituições e o endividamento das famílias. Na prática, isso significa que a redução da Selic tem menos poder imediato de aliviar o custo do crédito do que os cortes sugeririam — bancos preservam margens e precificam riscos, o que pode reduzir o efeito estimulativo dos cortes sobre consumo e investimento das famílias.

Do ponto de vista político e econômico, a evidência traz um sinal relevante: cortes sucessivos da Selic podem não produzir alívio proporcional na economia real no curto prazo, o que complica a narrativa de efeito ágil da política monetária sobre crescimento. Para consumidores e formuladores de política, o estudo reforça a necessidade de atenção à fragilidade da transmissão e a possíveis medidas complementares — maior concorrência no crédito, programas de redução do risco e políticas que contenham a inadimplência — se a intenção for amplificar o impacto dos cortes sobre o bolso das famílias.