A inesperada tração das vendas do comprimido Wegovy levou a Novo Nordisk a elevar suas projeções e teve impacto direto em Kalundborg, cidade de menos de 17 mil habitantes onde a produção ganhou escala. O êxito comercial traduziu-se em receita, investimentos e orgulho local: a farmacêutica aplicou cerca de US$ 9,3 bilhões na região desde 2021, transformando a planta em polo de produção de um dos maiores fenômenos farmacêuticos recentes.

A origem do salto está na descoberta de que a semaglutida — princípio ativo usado inicialmente em Ozempic para tratar diabetes — provoca perda de peso substancial. A versão aprovada especificamente para obesidade, Wegovy, e a posterior versão em comprimido ampliaram a demanda global. Em 2023, a forte procura ajudou a colocar a Novo entre as empresas mais valiosas da Europa; economistas e o próprio Danske Bank atribuíram à farmacêutica papel relevante para evitar uma recessão naquele ano.

O quadro, porém, virou com rapidez. Desde o pico de 2024, a ação da Novo perdeu quase três quartos do valor, e a empresa anunciou demissões em massa e projeções de queda de até 12% em vendas e lucros até 2026. A concorrência da americana Eli Lilly, que emplacou seus GLP-1, e a iminente chegada de versões genéricas em mercados como Índia e China — conforme expiração de patentes — acentuam a pressão. Analistas apontam que a dependência excessiva da semaglutida e a demora em diversificar ingredientes deixaram a companhia vulnerável; a própria direção reconheceu ter aberto caminho para concorrentes ao ser pioneira no segmento.

Para Kalundborg, o dilema é claro: o boom trouxe empregos e demanda, mas também concentrou risco econômico local. A rápida adoção do comprimido nos EUA, com mais de 2 milhões de prescrições até agora, mostra capacidade de recuperação, e ajustes como canetas com doses maiores e o formato oral atenuam o problema. Ainda assim, a combinação de queda nas ações, cortes de pessoal e competição por preço impõe a necessidade de estratégia — tanto da empresa quanto das autoridades locais — para preservar investimentos, mitigar perdas de emprego e evitar que o impulso inicial se transforme em fragilidade estrutural.