Em uma apresentação de mais de três horas em Florença, Luca de Meo prometeu reequilibrar o grupo de luxo Kering e tornar a Gucci novamente incontestável. O executivo afirmou que pretende mais do que dobrar a margem operacional — que ficou em cerca de 11% no ano passado — ao mesmo tempo em que reduz e melhora a rede de lojas e amplia as categorias de joias e óculos.

A reação do mercado foi imediata e mesclou otimismo cauteloso com dúvidas: as ações da Kering chegaram a cair cerca de 2,5% em Paris, embora já tenham subido mais de 40% desde a nomeação de de Meo em junho. Ainda assim, os papéis permanecem 28% abaixo da máxima de outubro, refletindo que os retornos operacionais continuam atrás dos pares do setor.

Nos slides do plano, a Kering comprometeu-se a reduzir estoques em 1 bilhão de euros em 12 meses e a aumentar a participação de artigos de couro de alta margem — meta avaliada internamente como mais de 1 bilhão de euros em vendas adicionais até 2030. Essas medidas buscam atacar fragilidades estruturais admitidas pela própria administração, que apontou dependência excessiva de ciclos voláteis da moda.

Analistas e gestores ouvidos após a apresentação destacaram um ponto central: a ambição estratégica existe, mas faltam metas trimestrais claras. Uma nota do JPMorgan registrou que houve poucas orientações quantificadas de curto prazo, o que alimentou o ceticismo entre investidores que exigem sinais práticos de recuperação já para 2026 e 2027.

Além dos desafios internos, o contexto externo complica a execução. A escalada no Oriente Médio afetou vendas na região do Golfo e a atividade de viagens, reduzindo a demanda de clientes de alto poder aquisitivo em deslocamento. Especialistas lembram também que a inflação pressionou a classe média aspiracional, público relevante para parte do portfólio da Kering. Em meio a esse quadro, a proposta de de Meo sinaliza direção clara, mas terá de convergir rapidamente em resultados tangíveis para restaurar confiança e justificar a ambição anunciada.