O Senado norte-americano confirmou Kevin Warsh nesta terça-feira por 51 votos a 45 para um mandato de 14 anos como diretor do Federal Reserve, uma etapa que acelera sua possibilidade de suceder Jerome Powell na presidência do banco central. Um único senador democrata, John Fetterman, quebrou a disciplina do partido e votou com a maioria republicana. A Câmara alta também votou para encerrar o debate sobre o mandato simultâneo de quatro anos para a cadeira de chair, procedimento que pode permitir a escolha formal do novo presidente já na sequência.
A indicação chega em meio a uma escalada de tensões entre o governo e o Fed: o presidente Donald Trump fez esforços públicos e jurídicos inéditos para pressionar cortes de juros, incluindo a tentativa de destituir a diretora Lisa Cook, atualmente em disputa na Suprema Corte, e o apoio a uma investigação do Departamento de Justiça sobre atos administrativos de Powell — investigação que foi abandonada, mas cuja promotora admite reabri-la. Powell reagiu dizendo que pretende permanecer como diretor após o fim de seu mandato como chair, citando ataques legais que, segundo ele, ameaçam a capacidade do Fed de decidir sem considerar fatores políticos.
Warsh diz pretender uma “mudança de regime” no Fed, propondo coordenação mais estreita com o Tesouro e o governo e um balanço patrimonial menor para viabilizar taxas de juros mais baixas. A proposta quebra com o princípio clássico de distância entre política monetária e executiva e acende alerta sobre a independência da instituição. Do ponto de vista técnico, o chair tem um voto entre 12 no FOMC e é apenas uma entre 19 vozes na mesa de definição de políticas, mas sua liderança define tom e prioridades em momentos de tensão política.
No curto prazo, a economia e os mercados seguem condicionados por fatores exógenos: a alta do petróleo após o conflito no Oriente Médio elevou a inflação e reduziu as chances de cortes de juros ainda este ano; as taxas básicas estão na faixa de 3,50% a 3,75% e os mercados atribuem agora apenas uma chance em três a alta em dezembro. A confirmação de Warsh, portanto, reduz a previsibilidade da política monetária: abre possibilidade de maior tolerância a juros mais baixos, mas coloca em xeque a percepção de autonomia técnica do Fed, com consequências políticas e econômicas que investidores e formuladores de política terão de avaliar nas próximas reuniões, a partir de 16 e 17 de junho.