A proposta de tarifas adicionais dos Estados Unidos às importações brasileiras reacendeu o debate sobre instrumentos de retaliação. Em entrevista ao Hora H, José Pimenta, sócio da consultoria BMJ, avaliou que a Lei da Reciprocidade, embora prevista em lei e disponível como ferramenta, precisa ser acionada com cálculo para não causar mais danos do que ganhos.
Pimenta lembrou que Brasil e EUA formam uma corrente de comércio estimada em cerca de US$ 80 bilhões, com o mercado americano pagando preços superiores para diversos produtos. Estimativas da Câmara Americana de Comércio apontam que até US$ 15 bilhões das exportações brasileiras seriam afetados pelas tarifas propostas — parcela que inclui bens de média e alta intensidade tecnológica e que não é trivial substituir em valor.
A possibilidade de redirecionar volume de vendas para outros destinos existe, sobretudo para commodities agrícolas, mas tem limites: produtos pensados e certificados para o mercado norte-americano nem sempre encontram na hora outro comprador disposto a pagar o mesmo preço ou a aceitar as mesmas especificações. Esse descompasso entre volume e rentabilidade é o cerne do risco apontado pelo especialista.
O Brasil tem duas frentes para responder: o caminho formal da Seção 301 conduzida pelo USTR, que prevê prazo para manifestações e audiências, e negociações bilaterais mais amplas, que dialogam com temas como regulação de big techs e, sobretudo, o interesse americano por terras raras e minerais críticos. Pimenta ressalta que, apesar de interligadas, as trilhas exigem estratégias distintas.
A presença de minerais críticos na pauta dá nova dimensão política ao conflito: o país detém reservas relevantes de terras raras e aprovou recentemente o Plano Nacional de Mineração Crítica, mas ainda está estruturando a regulação e as parcerias necessárias. Projetos de exploração e refino são de longo prazo e demandam forte envolvimento público-privado, o que limita respostas imediatas.
No balanço final, a Lei da Reciprocidade aparece como um instrumento legítimo e potencialmente útil, mas com riscos claros. Sua aplicação depende de provocação dos setores produtivos e de decisão estratégica do governo: a pergunta não é apenas se deve ser usada, mas contra quem e em que intensidade — escolhas que definirão se a medida será remédio ou fonte de problemas.