A conversa telefônica de mais de uma hora entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos foi recebida como um sinal positivo para reativar canais de diálogo que ficaram emperrados após a imposição de novas tarifas por Washington. Para especialistas consultados, o contato de alto nível é um ingrediente necessário para destravar negociações técnicas e reduzir atritos comerciais que vinham afetando cadeias produtivas brasileiras.

Segundo o gerente de comércio internacional da BMJ, Josemar Franco, setores importantes já sentiram o efeito das medidas norte-americanas, embora uma lista de exceções tenha beneficiado partes do agronegócio e da indústria. Para os ramos ainda penalizados, a reabertura do diálogo cria a possibilidade concreta de revogação de tarifas ou ampliação de exceções, desde que as conversas avancem em termos técnicos e não fiquem presas a disputas ideológicas.

Franco destacou também o papel estratégico dos minerais críticos: o Brasil possui reservas que interessam a Washington, que busca reduzir a dependência da China. Isso pode abrir espaço para aumento de investimentos norte-americanos, caso Brasília consiga apresentar propostas estruturadas e concessões comerciais compatíveis com interesses econômicos e de segurança dos EUA. O exemplo do Canadá, que avançou ao priorizar negociações técnicas, foi citado como modelo a ser seguido.

Há, porém, limitações políticas óbvias. Com eleições em ambos os países, mudanças de grande fôlego são pouco prováveis no curto prazo. O governo brasileiro, portanto, enfrenta um dilema: promover um canal técnico robusto capaz de gerar alívio econômico e atração de capital sem ceder a pressões que possam ser criticadas internamente. A alternativa é trabalhar por avanços incrementais e claros, que ofereçam retorno econômico a setores afetados sem expor Brasília a custos políticos diretos.