Uma conversa telefônica entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos reacendeu expectativas sobre as negociações comerciais entre os dois países. Segundo José Pimenta, colunista do CNN Money e sócio da consultoria BMJ, o governo brasileiro agiu estrategicamente ao manter a interlocução em alto nível — uma tentativa clara de reduzir a influência de intermediários e enviar um sinal direto ao mercado e ao USTR.

Pimenta separa o tema das tarifas em dois eixos. O primeiro é um conjunto de alíquotas aplicadas a cerca de 60 países, na faixa de 10% a 12,5%, vinculadas a investigações sobre práticas de trabalho forçado: segundo ele, essa medida será "muito difícil" de reverter, porque não admite amplo contraditório. O segundo é a tarifa específica de 25% aplicada ao Brasil, que, na avaliação do analista, ainda cabe negociação — o USTR tem margem para retirar a medida se ficar convencido de que as alegações foram resolvidas.

O governo não abandonou as tratativas e busca demonstrar que as acusações são infundadas ou merecem esclarecimento técnico, com temas sensíveis no centro do debate, como desmatamento e propriedade intelectual. Para Pimenta, a chamada presidencial deixou claro que o assunto "não morreu" e que ainda há pontos a explicar, o que mantém a pressão sobre equipes comerciais e sobre os prazos para um desfecho.

Há, porém, um componente político inevitável. Pimenta reconhece a dificuldade de dissociar comércio, política e economia em ano eleitoral, ainda que não espere uma contaminação direta do processo. Na prática, a persistência das tarifas mantém um risco econômico que pode se transformar em custo político: o governo terá de acelerar respostas técnicas e exposição diplomática para evitar que o impasse se reflita em maior incerteza sobre exportações e mensagem negativa ao eleitorado.