O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve usar a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão) para mobilizar o empresariado contra a proposta do governo dos Estados Unidos que prevê sobretaxas de até 25% sobre produtos brasileiros por alegadas práticas comerciais desleais, além de uma alíquota de 12,5% para países acusados de não coibir trabalho forçado. Em discurso previsto para esta quarta-feira, o chefe do Planalto reunirá empresários e representantes sindicais para explicar a ofensiva americana e pedir atuação direta junto a pares nos EUA.
A estratégia presidencial combina dois objetivos: dar uma prestação de contas do que diz ter feito no terceiro mandato e engajar o setor privado como interlocutor junto a Washington caso o quadro avance. Lula deve repetir críticas a Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, e reforçar a defesa da soberania nacional. Segundo a agenda divulgada, o encontro, que inclui lideranças do mercado e do trabalho, será o último antes do início formal do processo eleitoral, o que acrescenta dimensão política ao apelo.
Do ponto de vista econômico, medidas tarifárias na casa dos 25% representariam um choque sobre exportadores e cadeias de suprimento, reduzindo competitividade e elevando custos para consumidores e empresas importadoras. A solicitação de apoio empresarial visa justamente evitar um efeito que pode atingir setores sensíveis das exportações brasileiras, sobretudo agrícolas e industriais com forte ligação ao mercado norte-americano.
Politicamente, pedir ao empresariado que atue como vetor de pressão externa é uma opção pragmática, mas não isenta de riscos: transforma o setor privado em protagonista de uma disputa geopolítica e pode ser explorada por adversários como tentativa de instrumentalizar empresários em ano eleitoral. Para o governo, o movimento funciona como tentativa de internacionalizar a disputa e criar barreiras diplomáticas às sobretaxas; se fracassar, porém, ampliará o custo político e econômico da medida.