A aplicação provisória do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, marcada para 1º de maio, promete reduzir tarifas e abrir acesso a contratos públicos e mercados estratégicos. Mas a simples abertura comercial não garante ganhos automáticos: executivos brasileiros que participaram de eventos em Bruxelas relataram surpresa sobre a limitada percepção europeia das principais empresas do país — mesmo daquelas com atuação global.

O contraste é claro diante dos números: o Brasil responde por parcela relevante do PIB latino‑americano e concentra grande parte da economia do Mercosul; ao mesmo tempo, dispõe de reservas cambiais confortáveis, superiores a US$ 367 bilhões, que oferecem colchão contra choques. Ainda assim, a ausência de posicionamentos claros e narrativas ajustadas aos interesses locais reduz a capacidade das companhias nacionais de transformar vantagem macroeconômica em presença comercial e reputacional na Europa.

O ambiente externo agrega complexidade: medidas protecionistas, suspeitas de dumping e alegações de concorrência desleal são riscos reais. A logística também muda com a instabilidade no estreito de Ormuz, e o choque nos preços de energia — que já elevou em cerca de 24 bilhões de euros o custo europeu de importações de combustíveis — força a União Europeia a acelerar políticas de segurança energética, como o pacote anunciado pela Comissão em abril. Tudo isso altera regras de concorrência e cria exigências técnicas e institucionais para quem quiser exportar.

Na prática, empresas brasileiras têm ganho ao construir estratégias coordenadas: adaptar discurso aos reguladores europeus, mapear oportunidades em compras governamentais previstas pelo acordo, reforçar conformidade comercial e ajustar cadeias logísticas. Se não o fizerem, correm o risco de ver concorrentes explorarem essa janela. Para o Estado, cabe facilitar essa transição — por meio de diplomacia econômica, suporte a internacionalização e ações para reduzir barreiras não tarifárias — sob pena de desperdiçar vantagens que o acordo poderia oferecer ao país.