Nos últimos meses, nomes que faziam parte do cotidiano do consumidor brasileiro — Estrela, Tok&Stok, Bombril e Coteminas — passaram a figurar em processos de recuperação judicial. O movimento não é episódico: levantamento da Serasa Experian mostra 977 pedidos em 2025, alta de 5,5% sobre 2024, e 2.466 CNPJs envolvidos, um recorde histórico. O dado sinaliza que o choque de custo de capital e o aperto do crédito atingem tanto o varejo quanto a indústria.
O fio condutor entre casos tão distintos está no custo de financiamento e na restrição de acesso a crédito. Empresas que se financiaram em ambiente de juros baixos viram a Selic subir de 2% para mais de 13%, encarecendo o serviço da dívida. Ao mesmo tempo, bancos ficaram mais seletivos e consumidores passaram a conviver com parcelas mais altas, comprimindo demanda por bens não essenciais — fator crítico para varejistas de móveis e fabricantes de artigos domésticos.
As causas específicas variam: na Tok&Stok, o aumento do endividamento pós-pandemia, competição digital e queda do consumo culminaram em dívida superior a R$ 1,1 bilhão e fechamento de lojas. A Coteminas homologou plano para reestruturar cerca de R$ 2 bilhões em passivos, ilustrando pressões de custo e perda de competitividade diante de players internacionais. A Bombril, por sua vez, soma disputas tributárias e tensão sobre sua estrutura de capital.
Recuperação judicial, porém, é ponto de partida, não solução automática. Especialistas alertam que aprovação do plano apenas abre janela para renegociação e cortes de custos; é preciso reconstruir fluxo de caixa, modernizar modelos de vendas e, em muitos casos, enfrentar litígios fiscais. Para credores e fornecedores, o processo amplia o risco de calote e pressiona prazos de pagamento, com efeitos em cascata na cadeia produtiva.
No plano macro, o aumento de pedidos acende um alerta sobre a saúde do tecido empresarial brasileiro: fragilidades de gestão e exposição a ciclo de juros mais alto elevam o risco de desemprego e perda de capacidade industrial. A agenda pública deveria priorizar medidas que restabeleçam crédito produtivo e estabilidade financeira, sem perder de vista a necessidade de rigor na avaliação dos planos de reestruturação apresentados.