Uma pesquisa da consultoria Fesa Group ouviu quase 600 mulheres em cargos de gerência, diretoria e posições de liderança e traz um retrato preocupante: quase 80% afirmam não ter as mesmas oportunidades que homens para ascender na empresa. O levantamento destaca também que cerca de 59,1% das executivas sentiram impacto direto na trajetória profissional após a chegada dos filhos, sinalizando que a maternidade segue sendo um fator determinante na limitação de carreiras.

No âmbito prático, esse cenário se traduz em menos promoções, remuneração inferior e jornadas incompatíveis com responsabilidades familiares. O estudo descreve ainda práticas veladas em processos seletivos: empresas que, mesmo sem declarar, avaliam a intenção de maternidade da candidata. Especialistas classificam esse comportamento como 'penalidade da maternidade' — um viés que mistura discriminação explícita e preconceito inconsciente e que está presente tanto entre gestores homens quanto entre mulheres.

As consequências extrapolam o plano individual e tocam a economia. Relatórios como o PwC Women in Work indicam que reduzir a desigualdade de gênero alivia a escassez de mão de obra, amplia diversidade e eleva a produtividade. Do ponto de vista corporativo e fiscal, a perda de talento e o subaproveitamento de perfis experientes representam custos reais: menor inovação, rotatividade mais alta e desperdício de investimento em formação. A procura por congelamento de óvulos, que cresceu mais de 80% nos últimos cinco anos segundo Anvisa e a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, apresenta-se como sintoma — e não solução — de um mercado que pressiona mulheres a adiar escolhas familiares para não comprometer a carreira.

Há sinais de avanço: mais mulheres ocupam posições de destaque e casos de lideranças que combinam carreira e maternidade ajudam a mudar referências. Ainda assim, o diagnóstico exige respostas concretas: revisão de práticas de seleção, políticas de parentalidade que incluam homens, flexibilidade real de jornada e métricas públicas sobre promoções e remuneração por gênero. Sem essas medidas, o setor privado e o país continuarão a arcar com o custo econômico e institucional de não aproveitar plenamente metade do talento disponível.