Um levantamento do CNN Money estima que programas sociais, medidas de crédito e iniciativas extraordinárias do governo federal chegam a R$ 256,9 bilhões em 2026, ano eleitoral. A maior parte desses montantes é contabilizada como despesas financeiras ou extraorçamentárias, categorias que não entram no cálculo do resultado primário nem no limite de despesas do arcabouço fiscal, o que tem gerado críticas de técnicos e agentes do mercado.
Entre os itens listados estão o pacote para segurar preços dos combustíveis (custo potencial de R$ 16 bilhões desde março), apoio a exportadores por meio de medida provisória (até R$ 15 bilhões) e ampliação de programas sociais, como o Gás do Povo. A liberação de recursos do FGTS para beneficiários do saque-aniversário e iniciativas de crédito, como o Desenrola 2.0, também foram contabilizadas. O Ministério do Planejamento e Orçamento sustenta que parte dessas medidas pode elevar o PIB — um estudo citando efeito de até R$ 110 bilhões — e que as operações têm base legal e são auditáveis.
Técnicos ouvidos apontam, porém, uma contradição prática: despesas tratadas fora da conta primária não deixam de ser relevantes para a trajetória da dívida. Para a Instituição Fiscal Independente do Senado, investidores já incorporam essas operações ao precificar títulos, e há quem defenda que recursos de fundos formados com verbas fiscais deveriam ser apropriados pelo Tesouro e usados para reduzir a dívida em vez de financiar programas extras. No caso do Desenrola 2.0, o uso de saldos do SVR evita que a despesa figure como primária, com implicações para a transparência e para a consistência das metas fiscais.
O quadro cria um dilema político e econômico às vésperas da eleição: medidas que ampliam oferta de renda e crédito podem ter efeito imediato sobre emprego e consumo, mas corroem a sinalização de compromisso com a responsabilidade fiscal. A defesa do governo sobre legalidade e controle não elimina o custo político de se recorrer a mecanismos que afastam despesas do resultado primário. A reportagem consultou o Ministério da Fazenda sobre o pacote e eventuais impactos orçamentários; não houve resposta até a publicação. Resta aos órgãos de controle e ao mercado exigir clareza sobre os trade-offs entre estímulo, transparência e redução do endividamento público.