As medidas anunciadas pelo governo federal para tentar frear a alta dos combustíveis podem aliviar pressões no curto prazo, mas são aplicadas de forma apressada e sem integração, na avaliação do professor Edmar de Almeida, do Instituto de Energia da PUC‑Rio. Em entrevista, ele ressaltou que as iniciativas atuam para reduzir custos na cadeia e não equivalem a um congelamento de preços.

Almeida destacou contradições na arquitetura das políticas: o programa voltado ao diesel foi financiado com a criação de um imposto sobre exportações de petróleo, enquanto a proposta para gasolina e etanol usa o aumento da arrecadação como fonte — duas soluções desconectadas. Para o especialista, isso expõe falta de um planejamento único e coerente para o mercado de combustíveis.

Outra falha apontada é a exclusão do GNV das medidas, recurso relevante em mercados locais como o do Rio de Janeiro, onde é amplamente usado por taxistas e frotistas. Além disso, todas as medidas possuem prazo determinado, o que conflita com a imprevisibilidade do choque externo que eleva o preço do petróleo em razão da guerra. A temporariedade pode criar distorções fiscais e incerteza regulatória.

Almeida também adverte para o risco de esgotar instrumentos de intervenção ao reagir com pressa a um patamar de cerca de US$100 por barril — valor que já foi considerado normal em períodos anteriores. Agir ‘em pânico’ num patamar relativamente moderado pode reduzir a margem de manobra do governo em cenários mais extremos no futuro.

Do ponto de vista político e fiscal, a combinação de medidas pontuais, fontes de financiamento distintas e prazos curtos acende alerta: há risco de aumento de custos permanentes, pressões sobre a arrecadação e desgaste por promessas que podem não se sustentar. Especialistas pedem estratégia integrada e clareza sobre consequências orçamentárias antes de ampliar intervenções no setor.